Apps · 6 min de leitura

A BLA não responde a um mercado, constrói um

Existe pouco app brasileiro pensado pro mercado interno com cuidado editorial. A BLA não está disputando esse espaço pequeno. Está apostando que ele pode ser muito maior do que é hoje.

Tem duas formas de entrar num mercado. Uma é responder a ele: existe uma demanda clara, gente já procurando, e você chega pra atender melhor que os outros. A outra é construir: a demanda existe, mas latente, não organizada, não atendida, e você aposta que ela pode ser despertada. A BLA está na segunda.

O Brasil tem pouco app brasileiro pensado pro mercado interno com cuidado editorial de verdade. A maior parte da oferta é importada e traduzida, ou nacional e barata. No meio, onde estaria o produto brasileiro com acabamento, voz própria e respeito por quem usa, o espaço é quase vazio.

Um espaço quase vazio pode ser lido de dois jeitos. O jeito pessimista: não tem ninguém ali porque não dá dinheiro. O jeito da BLA: não tem ninguém ali porque ninguém tratou aquilo como uma categoria que merece ser construída. Vazio não é prova de ausência de demanda. Às vezes é prova de ausência de oferta.

A aposta da BLA é que existe uma demanda latente. Gente que usaria um app brasileiro bem-feito se ele existisse, que prefere um produto com voz própria a mais uma tradução genérica, que reconhece acabamento quando vê. Essa gente não está procurando ativamente, porque não sabe que a opção pode existir. Construir o mercado é, antes de tudo, mostrar a opção.

Construir é mais lento que responder. Responder a um mercado pronto dá retorno rápido, porque a demanda já está lá esperando. Construir um mercado exige paciência: cada app é também um argumento, uma demonstração de que aquela categoria pode existir e pode ser boa. O resultado vem depois, e vem maior.

É por isso que a linha de apps importa mais que qualquer app isolado. Um app sozinho atende algumas pessoas. Uma linha inteira, coerente, crescendo, faz outra coisa: ela torna visível uma categoria que antes não tinha nome. Mostra que produto editorial brasileiro não é exceção, é possibilidade real e repetível.

Tem um risco assumido nessa escolha, e a BLA sabe disso. Quem responde a um mercado existente tem a segurança do que já foi validado. Quem constrói um mercado aposta antes da validação. A aposta é fundamentada, não é fé cega, mas é aposta. A BLA prefere o risco de construir ao conforto de só ocupar.

No fim, é uma diferença de ambição. Responder a um mercado é pegar uma fatia do que já existe. Construir um mercado é aumentar o que existe pra todo mundo, inclusive pra quem vier depois. A BLA escolheu a segunda, porque o vazio que ela viu era grande demais pra ser tratado como simples lacuna.