Olhando o mapa da BLA, algumas linhas parecem não conversar. Uma linha de inclusão, com app de comunicação pra quem não fala. Uma linha infantil, com app de alfabetização. Uma linha sensorial, com app de toque pra dias difíceis. Territórios distantes, públicos distintos, problemas sem relação aparente. Mas há um fio, e ele é forte.
O fio é este: são apps que devolvem algo. Não no sentido publicitário da frase, no sentido literal. Cada um restitui a quem usa uma coisa que estava faltando, difícil ou perdida. O app de comunicação devolve voz a quem não consegue falar. O app de alfabetização devolve a alegria de ler a quem está aprendendo. O app sensorial devolve um respiro a quem está num dia pesado.
Isso os separa de uma categoria inteira de software. A maior parte dos apps pede. Pede sua atenção, pede seu tempo, pede mais uma sessão, pede que você volte, pede seus dados, pede mais de você do que você tinha pra dar. São apps extrativos por desenho, mesmo quando úteis.
Os apps que devolvem funcionam na direção contrária. O movimento não é de você para o app, é do app para você. Você abre, recebe o que precisava, e a interação termina ali, sem dívida, sem gancho, sem o app tentando te manter mais um pouco. Devolver é o oposto de prender.
Esse é um critério editorial, não um nicho de mercado. A BLA não entrou em inclusão, infância e sensorial porque são segmentos lucrativos. Entrou porque são lugares onde a ideia de devolver fica mais nítida, mais necessária, mais difícil de fingir. São os apps que mais cobram coerência de quem os faz.
Repare que nenhum deles é app de produtividade. App de produtividade, por definição, quer te tornar mais eficiente, ou seja, quer extrair mais resultado de você. Não é vilania, é a natureza da categoria. Mas é exatamente o oposto do fio que une essas três linhas da BLA. Aqui o app não quer mais de você. Quer devolver algo a você.
Quando você adota devolver como critério, ele começa a contaminar a linha inteira, não só essas três. Um jogo que te entrega quinze minutos de calma está devolvendo. Um utilitário que resolve e sai do caminho está devolvendo. A inclusão, a infância e o sensorial só tornam o princípio visível. Ele já estava em tudo.
É talvez a forma mais simples de explicar o que a BLA está tentando fazer. Num cenário onde quase todo software foi desenhado pra pedir, a aposta é em software que devolve. Apps que, depois de usados, deixam a pessoa com mais alguma coisa do que ela tinha antes de abrir. E que não cobram nada de volta por isso, além do preço justo de tê-los.